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Dieta anti-inflamatória no tratamento da obesidade e emagrecimento

Atualidades

Nos últimos anos, têm ocorrido mudanças expressivas na compreensão dos riscos e da causa de uma série de doenças crônicas com inflamação, entre elas a obesidade, o diabetes e as doenças cardiovasculares, que juntas constituem uma crescente causa de morte em todo o mundo.

Isso é confirmado pelos resultados de vários estudos comprovando que as doenças crônicas são acompanhadas pelos processos inflamatórios e que a presença de inflamação pode preceder o futuro desenvolvimento destas doenças.

A ligação entre obesidade e inflamação é a resistência à insulina, que leva a um aumento do processo inflamatório crônico de baixa intensidade (inflamação silenciosa). A relação entre resistência a insulina e processo inflamatório é bidirecional, ou seja, qualquer processo inflamatório crônico induz à resistência insulina, e esta, por sua vez, acentua o processo inflamatório.

Em relação à obesidade sabe-se que é muito mais complexa do que um mecanismo de ajuste de calorias entre o que se come e o que se gasta, por isso alguns indivíduos obesos não têm sucesso no emagrecimento quando comem menos e se exercitam.

Na maioria dos pacientes obesos, a obesidade está associada com inflamação silenciosa no tecido adiposo, sendo este quadro resultado da ativação crônica do sistema imune inato. O tecido adiposo de pessoas obesas está infiltrado por macrófagos (células de defesa do sistema imune), podendo este ser a maior fonte da produção local de citocinas pró-inflamatórias (substâncias que estimulam as reações inflamatórias).

De maneira interessante, a perda de peso está relacionada com a redução da infiltração de macrófagos no tecido adiposo e com a melhora do perfil inflamatório.

Essa inflamação no tecido adiposo vai causar perturbações na utilização metabólica de gordura proveniente do tecido adiposo (para produzir energia) e também causar dissociação dos sinais da fome e saciedade no cérebro (pela inflamação do hipotálamo). Por isso o indivíduo obeso sente constantemente fome e busca por alimento.

Os estudos comprovam que o aumento dos níveis da inflamação pode ser gerado pela alimentação causando uma ruptura nos mecanismos de sinalização cerebral (hipotálamo) e do tecido adiposo, levando ao acúmulo de gordura corporal em excesso.

A dieta, ou alimentação, pode exercer uma resposta anti-inflamatória ou inflamatória semelhante a uma resposta gerada por uma doença ou microorganismo. Uma alimentação saudável, terá efeito anti-inflamatório, auxiliando no tratamento de diversas patologias, inclusive a obesidade.

Nos últimos 30 anos observamos uma grande mudança na nossa alimentação, que tem contribuído para o surgimento da inflamação silenciosa. Esses fatores dietéticos incluem o aumento do consumo de carboidratos refinados (arroz branco, pão branco, biscoitos, massas e seus derivados de farinha de trigo branca, açúcares), aumento do consumo de óleos vegetais ricos em ômega-6 (óleos vegetais como soja, milho, girassol, oleaginosas como castanhas, amêndoas, avelãs, etc.)  e redução do consumo de alimentos ricos em ácidos graxos ômega-3 (peixes gordos como salmão, sardinha, atum, linhaça).

Esse padrão alimentar possui uma alta carga glicêmica, levando a um excesso de insulina, que, juntamente com os ácidos graxos ômega-6, aumentam o nível de ácido araquidônico no corpo, uma importante substância inflamatória que produz as citocinas. Em contraste, alimentos ricos em ômega-3 diminuem a produção do ácido araquidônico, reduzindo a inflamação.

Não há nenhuma droga que pode reduzir o ácido araquidônico corporal, apenas a alimentação pode. As fontes alimentares de ácido araquidônico incluem carnes, gemas, vísceras, manteiga e proteínas de origem animal como leite e seus derivados. Mesmo uma alimentação vegetariana pode contribuir para o aumento do ácido araquidônico, pois não somente a gordura saturada aumenta a sua produção, mas também o consumo de óleos vegetais, oleaginosas e cereais refinados contribuem para esse efeito.

O total calórico da refeição também é de importante controle, pois grandes quantidades de calorias elevam os níveis de insulina, aumentando a inflamação pelos mecanismos citados acima. Além disso, grande consumo de alimentos, provoca inflamação no hipotálamo, perturbando o equilíbrio exato de sinalização de hormônios da saciedade e da fome, por tanto, aumentando o apetite.

Em relação à distribuição calórica indica-se 20-35% do total da caloria seja fornecida pelas gorduras, com baixos teores de ômega-6 e gordura saturada. O azeite e as nozes são fontes de gorduras vegetais pobres em ômega-6 e o consumo deve ser encorajado.

As proteínas devem ser oferecidas ao longo do dia em todas as refeições para proporcionar saciedade. Em média, para mulheres a recomendação seria 80-90g e homens cerca de 100-110g de proteína com baixo teor de gordura por dia.

O conteúdo de carboidrato deve ser capaz de manter um nível estável de insulina entre as refeições. Os carboidratos devem ser fontes de polifenóis, como frutas, legumes e grãos integrais. Deve haver restrição severa de carboidrato refinado (pão branco, arroz branco e derivados de farinha branca refinada). Não há dúvida de que uma alimentação de baixo índice glicêmico reduza a inflamação.

O padrão alimentar deve ser 5-6 refeições por dia, para que não passe mais do que 4 horas sem se alimentar e manter o controle hormonal. A alimentação deve ser rica em ômega-3, peixes gordos e vegetais coloridos ricos em polifenóis. Uma dieta anti-inflamatória restringe o uso de pães e grãos refinados e compensa isso com alimentos coloridos (polifenóis) como frutas e verduras.

O sucesso dessa dieta pode ser medido clinicamente por vários marcadores de inflamação bem como a melhoria das condições metabólicas (síndrome metabólica, diabetes, doenças cardiovasculares) que estão associadas com a obesidade.

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Nutricionista Mariana Herzog Ramos
Graduada pela Universidade Federal de Viçosa-MG (UFV)
Docente de curso superior em Nutrição
Esp. Nutrição Clínica Funcional, Universidade Cruzeiro Sul São Paulo/CVPE

Ms. Ciências Fisiológicas, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)



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